SatoPrado - coletâneas

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domingo, 4 de abril de 2010

1864/1872: A GUERRA COM O PARAGUAI

1.  O acontecimento
Guerra com o Paraguai - Tomada de Paissandu
Consta, historicamente, quatro 'santacruzenses'
nas frentes de batalhas.
A Guerra com o Paraguai, a partir de 1864, fez aumentar desordenadamente o crescimento populacional no centro sudoeste e oeste paulista, com as vindas de sul mineiros e fluminenses fugitivos do arrolamento militar     recrutamento compulsório para os campos de batalhas. 
No sertão havia terras a bons preços e "muita gente se dedicou ao serviço de matar índios e muitos indivíduos vangloriavam-se das façanhas praticadas e dos montes de cadáveres que fizeram (...) na sanha de bater o bugre (...) e procediam impiedosamente. Os naturaes, depois de expellidos da posse de Theodoro (...) que pouco a pouco os immigrantes estavam povoando (...)." (Nogueira Cobra, 1923: 52). Era preferível matar índios e tomar-lhes as terras que enfrentar os paraguaios. 
Segundo Dantas, "Com a Guerra do Paraguai, a população aumentou, rapidamente, diante da vinda de moradores de Pouso Alegre, que para lá emigraram. A fim de encontrar refúgio e calma, uma vez que a célebre cidade mineira estava no caminho das tropas militares; bem como chegaram homens fugindo à convocação e ao voluntariado." (1980: 32). 
Nogueira Cobra mostrou outros detalhes: "muitos havia, pela idade, isentos do serviço militar e partiram, simplesmente, acompanhando filhos e neto." (1923: 44), enteados, sobrinhos e futuros genros, elegendo o sertão paulista como abrigo seguro. 
A Guerra serviu de incremento à produção agropecuária e comercial santacruzense. As fazendas adiante  que seriam abertas ainda demorariam cinco ou mais anos para os resultados produtivos, e muitas famílias continuavam chegar, com isso as condições extremamente favoráveis a Santa Cruz do Rio Pardo, com maior e melhor produção de excedentes para suprir demandas.
O centro sudoeste paulista não se movimentara de maneira ativa para participação direta na Guerra com o Paraguai, nem houve adesão santacruzense às frentes de batalhas ou atendimentos aos conclamos pátrios, e Santa Cruz do Rio Pardo muito mais se preocupou com as cheganças de mineiros e fluminenses fugidos dos recrutamentos, exigentes de produtos para a sobrevivência no sertão desde ferramentas para o trabalho aos gêneros alimentícios e mercadorias importadas como o sal, querosene, munições e armas, além dos objetos manufaturados e artigos do lar. 
Lembram as tradições que apenas duas pessoas da região santacruzense participaram da Guerra com o Paraguai, o Capitão Francisco Martins da Costa, cuja documentação ainda não localizada, tido integrante das tropas que ocuparam Assunção, em janeiro de 1869, e certo Capitão Barros, assim identificado em registro de óbito da viúva Margarida de Barros, falecida e sepultada em São Domingos, de acordo com registro eclesial de de 10 de agosto de 1873, sem qualquer outro documento que possa melhor identificá-lo.
O terceiro nome, documentalmente comprovado de participações em frentes de batalhas, foi o Capitão Joaquim Compton D'Elboux (Della Rosa  Ricardo R_32, 2011: 16/03). 
O Capitão D'Elboux, se presente em Santa Cruz antes da Guerra não se sabe, tem seu nome no 7º Batalhão dos Voluntários da Pátria, e, com segurança histórica, em 1873 respondeu pelo cargo de subdelegado, 1º suplente em Santa Cruz do Rio Pardo, e foi comerciante em São Pedro do Turvo (Almanaque da Província de São Paulo, 1873: 448).
Santa Cruz tornou-se empório do sertão, lugar favorável para estabelecimentos de donos de armazéns; dos fazedores e arrumadores de carros de boi, carretas e carroças; dos ferreiros fabricantes de instrumentos agrícolas; e dos proprietários de pousadas com potreiros. A estes se ajuntaram os comerciantes de secos e molhados; os donos de lojas de tecidos e casas de variedades; os hoteleiros, armeiros, carpinteiros,  oleiros, funileiros, construtores e outras profissões, além dos condutores de gado, os tropeiros, os transportadores de mercadorias e os safristas ou mascates.
A região santacruzense não sofreu com o crescimento desordenado no período da Guerra, às maneiras de localidades adiantes, todavia são certas algumas implicações decorrentes ao incorporar, em sua sociedade, pessoas diferentes e de estranhos comportamentos, foras da lei e marginais que simplesmente resolveram chegar, por refúgio e lugar propício para o exercício de embustes e engodos, contra gente inocente e de boa fé.
2.  Subdelegacia de distrito 
Já ultrapassado o meado dos anos de 1860, os presos em Santa Cruz eram enviados a São Domingos e  a Botucatu. A condução prisão era um carroção gradeado – comum à época, ou o preso à pé, amarrados ou chinchados à selaria de um cavalo conduzido por uma 'autoridade', fortemente armada, e seguranças.
Discutível como e onde o preso aguardava remoção a uma das cadeias da região, mas Santa Cruz não era e nem podia ser diferente de outras localidades de sua época e porte, ou seja, o  detido aguardava amarrado a um tronco, que vagas lembranças indicam a atual Praça Major Antonio Alóe.  
O governo paulista reconhecia a precaridade da segurança pública no interior da província e das péssimas condições das cadeias: "A de Botucatu é um quarto particular sem segurança, sendo necessário acorrentar os presos para evitar a fuga. Tenho conhecimento pessoal desta localidade, e posso informar com pleno conhecimento de causa. (...). Nas freguesias de S. Domingos, Lençóes, (...), há pequenos quartos que servem de prisão (RG, BN 998, 1860/1861: S 1-6). 
No ano 1867 foi dada à Capela Santa Cruz do Rio Pardo a condição de Subdelegacia de Polícia: "Ao chefe de policia. – Remettendo, para os devidos effeitos, a cópia da portaria creando subdelegacias de policia na freguezia de Nossa Senhora da Piedade do Rio-Bonito, e capellas de S. Pedro, Santa Cruz e S. Sebastião do Tijuco-Preto, todas do municipio de Botucatú." (Diário de São Paulo, 15/11/1867: 2).
Pouco depois o governo provincial paulista anunciava, firmado em expediente nº 5.504, de 31 de dezembro de 1867: "Das subdelegacias foram providas (...), não incluindo-se n'este numero as 6 não providas, que são (...), Sam Pedro, Santa Cruz e Sam Sebastião do Tijuco Preto, capellas, neste anno" (RG, BN 1008, 1867/1868: A 15-9, Secretria de Polícia). 
No exercício de 1868 o governo declarou que não estava preenchida a vaga para a subdelegacia de Santa Cruz do Rio Pardo, "por falta de informações de pessoal idoneo" (RG, AN 1009, 1868/1869: A 1 – 12).
A despeito do não preenchimento do cargo ou ausência de pessoal, a subdelegacia local, em 1869, inseria-se no Quadro de Divisão Policial da Província de São Paulo (RG, AN 1009, 1868/1869: Mapa S/N – da Comarca de Botucatu).
4.  A Organização urbana
Com o término da Guerra com o Paraguai, em março de 1870, Santa Cruz já havia assumido a condição de comércio exportador para os mercados distantes ou grandes centros consumidores, situação de sucesso que seria mantida por décadas seguintes, com economia forte centrada na agricultura diversificada, na pecuária e na intensa criação de porcos, beneficiando-se da sua posição geográfica para o sertão centro sudoeste e oeste paulista, além do norte pioneiro paranaense. 
A evolução econômica para a região refletiu-se no comércio interno e na expansão do núcleo urbano de Santa Cruz com as moradias e comércios subindo o planalto até a altura das atuais ruas Benjamin Constant e Dr. Cyro de Melo Camarinha, embora centrada, ainda, em datas que faziam parecer maior o seu núcleo urbano. A Igreja Matriz, concluída e inaugurada em 1873, na antiga Praça Anchieta, aos fundos da atual Praça Dr. Pedro César Sampaio, é evidente prova da extensão urbana santacruzense naquela época.
Por conseguinte, a região de Santa Cruz, pelas suas primeiras fazendas desde 1851, estava treze anos à frente dos confins de Campos Novos Paulista (fundação em 1864), tempo suficiente para sua afirmação agropecuária e criação de porcos, além de boa estrutura em termos de melhores estradas para se transitar e escoar mercadorias, de firmar seus armazéns de provisões e torná-los suficientes para bons negócios. 
Também os bairros rurais centrados para a Capela e depois Freguesia de Santa Cruz do Rio Pardo, davam-lhe extensa territorialidade, então sinônimo de progresso e riqueza. 

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