SatoPrado - coletâneas

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domingo, 4 de abril de 2010

1847/1851: A GUERRA AOS ÍNDIOS

1.  Resistência indígena aos conquistadores
Crédito: Johann Moritz (Maurice) Rugendas - litogravura original 'Guerrilha'
Com a expulsão dos jesuítas do Brasil e o fim do aldeamento em 1759, os índios tornaram-se vagantes pelos lados de Botucatu, dificultando a fixação do homem branco, até que lhes sobrevieram os ataques promovidos pelo Coronel Francisco Manuel Fiúza, a serviço dos fazendeiros e sesmeiros no alto da Serra, em 1770. 
Os índios expulsos por Fiúza retornaram dez anos depois, com seus descendentes e acrescidos de outros grupos e restos tribais, para formar numerosa e preocupante população adversa ao progresso, postando-se nas encostas da Serra de Botucatu, onde a geografia lhes facilitava os movimentos e táticas de combates, impedindo o expansionismo capitalista.
A relativa segurança adiante da serra favorecia e incentivava chegadas de outros índios, isolados ou em  bandos, sobreviventes escorraçados pelos fazendeiros de outras regiões, como os grupos Caiuás (Guarani) vindos do sul matogrossense, dos lados paranaenses, do leste paraguaio e nordeste argentino, desapossados de seus termos procurando garantia, pós 1835, depois de infausta querença pelos lados de Itapetininga e Itapeva. 
Restos de grupos Xavantes (Otis) ingressaram, pelos cerrados e campos do Vale do Paranapanema, ou para os lados de Bauru e Lençóis Paulista (Fernandes, 2003: 13-16), em fuga dos desbravadores, notados por Joaquim Francisco Lopes, em 1840, quando este à procura de melhor via de comunicação entre a província de São Paulo e Mato Grosso (Tidei Lima, 1978: 41).
Tribos Caingangues apresentaram-se por volta de 1800, ocupando posições às beiras do rios maiores, não se misturando aos outros índios.
A população indígena cresceu de maneira tal que, em 1835, já se dizia de infestações nas morrarias e furnas das Serras de Agudos e de Botucatu, nos Vales do Rio Pardo, Peixe, Feio/Aguapeí e do Batalha, além do Paranapanema paulista. 
2.  As principais etnias no alto da serra e adiante dela
Nas primeiras décadas do século XIX todo o interior paulista, entre os rios Tietê e Paranapanema, a partir dos povoados de Botucatu e São Domingos à barranca do Rio Paraná, era imenso sertão desconhecido da civilização, região inóspita e insalubre, habitado por índios e animais selváticos. 
Os índios, de diferentes etnias, movimentavam-se dentro de todo esse espaço geográfico, escolhendo áreas e por elas guerreando com os rivais.  
Da Serra Botucatu em direção ao Vale do Paranapanema, pelo denominado Vale do Pardo, incluso parte do antigo município santacruzense, algumas etnias ou nações indígenas habitavam o lugar, destacando-se tribos dos Guayanãs   Xokleng, Caiuá-Guarani, Oti-Xavante e Caingangue.
2.1.  Caiuá-Guarani
O Caiuá, subgrupo identificado por 'Caiuá-Guarani', vivia nos espigões e beiras de pequenos rios, ao longo do divisor Pardo/Turvo. 'Caa-wa' tem significado de 'o feio do mato', ou espinho, no sentido de imprestável.
Há consenso que bandos de Caiuá e Guarani, propriamente dito, tenham vindo do sul de Mato Grosso, Paraná, leste do Paraguai e nordeste da Argentina, onde desapossados de seus termos procuraram segurança em terras do Planalto Ocidental Paulista, unindo-se aos destroços tribais no Pardo, após 1835.
2.2. Botocudo
Na região de Avaré - Abaré-y, índios Botocudo em 1850 conviviam com os Caiuá em harmonia e juntos defendiam seus territórios. Impossível não considerar miscigenações entre eles.
Pouco ou nada se sabe do grupo Botocudo presente nas matas do Abare-y.
No Brasil costuma-se apontar o Botocudo como Jê, descendente paleoindígena do Povo de Luzia, opinião compartilha-da por João Paulo Atui, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP, em sua dissertação de mestrado (2004: vol 47 nº 1, Revista de Antropologia) sob orientação de Walter Neves.

Revela o Jornal da Ciência, Órgão da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em sua edição de 29 de outubro de 2005, que "crânios de índios extintos do Brasil Central indicam elo com primeiros povoadores da América", para assim concluir Reinaldo José Lopes, "Os botocudos são, para todos os efeitos, paleoíndios" (Lopes, JC e-mail 2872: 10/10/2005). 
Sem questionamentos a Lopes, cumpre entendimento que assemelhados diversos aos Botocudos impedem garantia histórica a respeito (N.a).
2.3.  Oti-Xavante
O Jê (Oti-Xavante) ou povo Xavante, integrante da família linguística Jê, tronco Macro-Jê, originário remoto do litoral mara-nhense, sempre numa movimentação precavida, em fuga dos desbravadores, chegou ao Mato Grosso e depois atravessou o rio Paraná – no século XVII, e escorraçado avançou pelos campos até para os lados de Bofete. 
A presença branca o fez recuar, por volta de 1840, para os cerrados entre o Pardo e o Turvo, com presença notada em alguns afluentes do Turvo às duas margens. 
Era chamado 'índio do cerrado', como significado do vocábulo 'xavante', embora inexista uniformidade gráfica senão o aportuguesamento fonêmico.
2.4. Ofaiê-Xavante
Segundo o mapa etnográfico de Hermann von Ihering e dados levantados por Curt Nimuendaju, depois por Darcy Ribeiro, os Ofaiê são classificados distintos dos Akuen e dos Oti (Tidei Lima, 1978: 41-A), grupos também Xavante.
Antigos sertanistas apontam presenças de índios Ofaiê-Xavante na região de Jaguaretê e Laranja Doce (Giovannetti, 1943: 58). Compreende-se que o Ofaiê seja oriundo do sul mato-grossense, de toda bacia inferior do Pardo e do sul do Mato Grosso, que entraram em terras bandeirantes por volta de 1910, perseguidos pelos fazendeiros instalados.
Darcy Ribeiro conviveu por semanas com os últimos sobreviventes Ofaiê, em 1948, ocupante das margens do Santo Anastácio (Tidei Lima, 1978: 41-A).
Os Ofaiê-Xavante foram violentos e opositores ao avanço dos brancos, adiante de Conceição de Monte Alegre, conforme "estão a testemunhar a rapida extinção da tribo e as histórias das chacinas de que foram vítimas" (Darcy Ribeiro, 1951: 107-108, apud Tidei Lima, 1978: 41-A e 42).
Descendentes dos primeiros desbravadores regionais contam que as familias Nantes, Botelho e Medeiros, entre outras, valeram-se dos préstimos de bugreiros como João Hipolito, João da Silva Oliveira, José Theodoro de Souza Junior e o Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, para matanças de índios, e fazê-los recuar para além dos rios Paranapanema e Paraná, deixando livres as terras pretendidas.
Em empreitadas do gênero foram exterminadas tribos inteiras de Oiti e Ofaiê, independentes se pacíficas ou não.
2.5.  Caingangue
O Caingangue ou 'Caa-Caing', designativo xavante com significado de 'gente do mato', habitava matas fechadas às beiras dos rios maiores, na região do médio Paranapanema e o Pardo. Também conhecido por 'coroado', em causa do corte de cabelo, o Caingangue seria 'primo' do Xavante, com certa semelhança de fala, por isso 'grupo macro-jê' para os especialistas.
De origem controvertida, os grupos que se apresentaram no Pardo seriam oriundos das margens do rio Uruguai, chegando aos magotes, por volta de 1800, já ocupando posições, não se misturando aos outros índios.
2.6.  Magotes ou os destroços tribais 
Tribos Caiuás e Otis habitavam regiões paulistas desde Avaré a Santa Cruz do Rio Pardo, até que destroçados pelo bandeirismo mineiro de 1850/1851, com perdas de unidade tribal e identidade cultural, transformando-se em grupos vagantes, e muitos escravizados.
Sobreviventes deixaram a região rumo às matarias do vale Santo Anastácio, gradativamente, à medida da progressão sertaneja, incorporando pelos caminhos outros grupos indígenas afugentados do Paraná e Mato Grosso do Sul, para formar forte resistência nas regiões do Cervo, Capivara e Conceição de Monte Alegre, onde conhecidos como Magotes, ou seja, índios de diferentes etnias ou sem elas, como resíduos populacionais unidos e propositados em conter o avanço dos colonizadores, com a adoção da regra de ataques preventivos, alcançando regiões do Pari-Veado e mesmo São José do Rio Novo – Campos Novos Paulista. 
Afastados mais uma vez, os Magotes ganharam forças unindo-se a outras hordas fugitivas do Paraná e Mato Grosso, e são diversos os relatos de ataques contra a população branca. 
Quando os brancos chegaram para as ocupações das últimas terras paulistas, entre o Paraná e o Paranapanema, lá encontraram "os indios pretos denominados Chavantes, os (Ouatós), que moram nos campos, os Lainos, Camacosos, Quiniquinau, Coroados, Charraos, e Botocudos, os quaes se escondem para que a civilização não lhes penetre em seus territórios ". Era o último foco de resistência e até os restos Caingangues estavam, ali, unidos aos demais destroços tribais.
2.7. Os autodenominados Tupi 
Tidos por especialistas como subgrupo Guarani os Nhandéva, hoje aldeados em Araribá (referência 2014), auto intitulam-se descendentes Tupi, já rejeitando as identificações Tupi-guarani ou Caiuá-guarani.
Concordam Denise Monteiro de Castro e Marcos Garcia Neira, em 'Cultura Corporal e educação escolar indígena – um estudo de caso': "e os Nhandéva, que se autodenominam 'Tupi-guarani' ou simplesmente Tupi'-." (Revista HISTEDBR On-line 2009: 236), na verdade o vocábulo tem o significado de "-'todos nós' (todos nós índios)" (Rodrigues de Almeida, 2013: 6).
Para Nimuendaju não há traços Tupi entre os Guarani primitivos no território paulista. Outrossim, exceto aos reconhecidamente miscigenados, é errada a classificação Tupi-guarani, ou alguma língua denominada tal, consoante em algumas literaturas, o que evidentemente não impede algum índio bilíngue.
No entanto os Tupi passaram por tantos aldeamentos que não se pode mais, desde o final do século XIX, determinar algum representante seu de pura origem no território paulista, posto fruto de miscigenações de brancos, negros, pardos, além de outras etnias indígenas, à exceção Caingangue. Os índios, vistos no interior paulista no último quartel do século XIX, quase não possuíam pureza ou não representavam etnia confiável.
Desde os tempos da Fazenda Jesuítica Botucatu os padres incentivavam as miscigenações entre brancos, negros e índios, para a pretensa formação do homem brasileiro ideal, como se pensava na época, com a inteligência do branco, a robustez de negro e indolência do índio. 
Depois, no século XIX viriam os aldeamentos instituídos oficialmente na Província de São Paulo, e quase de imediato surgiram os primeiros núcleos de proteção ao índio, inicialmente em regiões litorâneas e próximos à capital, depois, a pedido de João da Silva Machado – Barão de Antonina, também no sudoeste paulista, sendo o primeiro deles na localidade de São João Batista do Rio Verde [futura Itaporanga], fundado com o mesmo nome em 1845, para o qual designado diretor o frei capuchinho italiano, Pacífico de Montefalco, auxiliado por outros dois freis italianos, Galdêncio [Gaudêncio] de Gênova e Ponciano de Montaldo.
Outros aldeamentos conhecidos, São Sebastião do Tijuco Preto, nas proximidades da atual Piraju, em 1854; São Pedro de Alcântara, na localidade de Jataizinho - PR, em 1855; Aldeamento Pirapó, também conhecido por Nossa Senhora do Loreto, ainda em 1855; o de São Jerônimo da Serra em lugar de igual nome, no ano de 1859, situado às margens do rio Tigre um afluente do Tibagi; e o de Santo Inácio, em 1862, e também, no mesmo ano, o aldeamento Itacorá, em Salto Grande.
Os Tupi primitivos eram caçadores, inclusive de inimigos tribais, para os sacrifícios ritualísticos onde a ocorrência antropofágica. Não opositores ao entradismo branco e até colaboracionistas, viram suas mulheres gerando mamalucos - das uniões com brancos, e logo privados da essência canibalesca de sua cultura. O canibalismo foi combatido à exaustão pelo clero e reinóis, e os Tupi tornaram-se caçadores de índios para a escravização requerida pelos colonizadores.
Para Schaden (1954: 391) "Com toda razão aponta Charles Wagley (1951: 117) o fato que a eliminação da guerra e do sacrifício dos prisioneiros, através da proibição rigorosa pelos portugueses, removia uma das motivações centrais da cultura Tupi." 
Recentemente parte do grupo indígena do aldeamento Araribá, em Avaí - SP, antes conhecido como Caiuá-guarani, depois Nhandeva-guarani, agora autodenominam-se Tupi, deslocou-se de Araribá rumo a Barão de Antonina e Itaporanga para retomarem as terras entendidas suas, desde os tempos do aldeamento, e da qual entendiam expulsos pelos fazendeiros, na primeira década do século XX.
Reconheceu-lhe os direitos a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 231, para "(...) sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo a União demarca-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens." 
Parte dos Nhandeva permaneceu em Araribá, confinada entre os Terena, conforme reclamações, e requer terras na antiga localidade de São Domingos, consideradas devolutas e de seus antepassados que lá habitaram.
Os autores foram procurados por representantes Nhandeva, de Araribá, para obtenções de documentos que possam atestar-lhes passagens pelas regiões de Santa Cruz do Rio Pardo e Domélia - Distrito de Agudos, inclusa a extinguida São Domingos.
Os Nhandeva fundamentam-se numa lenda contada pela matriarca, que em 1808 os antepassados deixaram Barão de Antonia e Itaporanga, rumo ao Batalha na região de Bauru. Parte chegou e parte teria ficado pelos caminhos, em São Domingos. Dos que chegaram, logo convencidos por Nimuendaju, aldearam-se em Araribá, criado em 1910 e ativo a partir de 1912.3. O capitalismo contido no alto da Serra Botucatu
3. Incursões predatórias em territórios indígenas
3.1. O capitalismo contido no alto da Serra Botucatu 
Aonde viria ser Botucatu havia um povoado ou arranchamento conhecido por Nossa Senhora das Dores no Cimo [ou em Cima] da Serra, coisa pouca, habitado famílias de pequenos posseiros. O lugar, consta, fundado por Simão Barbosa Franco, e citado em 1779 contando "apenas 7 fogos ou casas, com 48 moradores, incluindo-se os chefes de família, suas mulheres, filhos, agregados e escravos" (Almeida Pinto, 1994: 23).

Em 1808 o Capitão José Gomes Pinheiro [Vellozo] teria chegado à região dimensionando terras e, em 1816 já adquirido a antiga sesmaria do Capitão João Pires de Lara (nome modificado para João Pires de Almeida Taques), e a seguir anotado demandador contra pequenos posseiros instalados na propriedade. Se no Cimo da Serra os arranchados davam-se bem com os índios, o mesmo não acontecia com os intrusos que o Capitão pretendia instalar, e nem com os demais fazendeiros divisos.
Político liberal em Itapetininga, o Capitão Gomes Pinheiro reivindicava apoio do governo paulista para conter os perigos indígenas que ameaçavam os fazendeiros e famílias trabalhadoras na serra. O atendimento, caso ocorresse, significaria a autorização para o avanço armado, como medida preventiva, sobre tribos indígenas; e não o conceder seria expor os brancos à sanha dos selvagens. 
A tensão sobrecarregou-se com a edição da Lei Imperial de 27 de outubro de 1831, revogando as disposições das antigas Cartas Régias nas partes que permitiam declarar guerra aos índios, ainda que preventiva, até o extermínio se necessário, e a servidão dos capturados. 
Com a política indigenista então afeta ao poder central, o governo paulista não demonstrava qualquer interesse com fundações de povoados ou expansões territoriais civilizadas na região e adiante dela, menos ainda nos investimentos em infraestruturas de sobrevivência ou na colonização exploratória. 
A atenção provincial mantinha-se para os lados da Mantiqueira e Vale do Paraíba onde prósperas a cafeicultura para exportação, enquanto para interior propriamente dito os investimentos maiores destinavam-se às regiões de Araraquara e Ribeirão Preto, onde a importância da criação de gado e as primeiras lavouras de café.
O avanço entre os rios Tietê e Paranapanema, portanto, preocupava tão somente aos fazendeiros da serra, e isto deveria ocorrer sem a presença ordenadora do governo paulista que não possuía condições ou vontade em manter medidas de segurança para evitar o chamado perigo indígena, não avalizava a retirada dos índios e nem se prestaria para mediar conflitos.
Pesava que o extermínio indígena, ou sua escravização, não estava bem visto internacionalmente, e sobre o Brasil pesavam pressões e sanções econômicas nada interessantes para o comércio exportador, principalmente do café. Oficialmente, pela citada Lei de 1831, os índios estavam declarados órfãos e tutelados pelo Império, que deveria então protege-los em aldeamentos, ou de qualquer maneira evitar massacres.
Para os fazendeiros, no entanto, o sistema de aldeamento precisava ser repensado, pois o aldear os naturais sem retribuições ou obrigações de prestações de serviços compulsórios gratuitos, seria o mesmo que acometimento pacífico por forçar os proprietários e a população contribuírem com a manutenção indígena.
Os selvagens não apenas incomodavam como tocaiavam e matavam os brancos com extrema crueldade, empalando, crucificando, degolando e esquartejando corpos de maneira a causar terror entre as famílias desbravadoras. Adotaram também métodos de luta dos brancos, transmitindo táticas de combate, como não se defrontarem com o inimigo em campo aberto, preferindo as matas onde mais facilmente se abrigavam dos tiros, além da facilidade por ataques surpresas ou combates corpo a corpo, cientes que suas flechas eram quase sem efeito contra as proteções que os brancos usavam sobre o corpo, os escupis e couras, ou pelas corridas ziguezagues que praticamente lhes impediam fixar o alvo.
Outro eficiente sistema indígena era chegar, pelas matas, em grupos diversos, até onde estavam os brancos e ali atacá-los de surpresa para assim impedir-lhes os avanços até as aldeias. Apesar das tantas tentativas, os brancos não conseguiam avançar sertão dada a feroz resistência indígena encarnada nos Caiuá, pelos lados de Itatinga e Avaré; os brancos, quando não trucidados, fugiam.
Apenas cinco fazendeiros conhecidos insistiam permanecer no alto da serra: o Capitão Apiaí – Ignácio Dias Baptista, o Capitão Joaquim Gabriel de Oliveira Lima, o José Inocêncio da Rocha, o Capitão José Gomes Pinheiro Vellozo, e um tal Marques cuja propriedade assumida, por volta de 1832, pelo tropeiro Joaquim da Costa Abreu, mineiro de Silvianópolis, com interesses em Araraquara, no Bairro do Jacaré. 
Praticamente desconhecido na história, Joaquim da Costa Abreu era casado com Floriana Maria Marques, filha natural de Antonia Maria de Jesus, sendo certo herdeira de João Marques, sesmeiro agrupado a outros na região botucatuense, e dono de posses também para os lados de Araraquara, no Bairro do Jacaré. As terras do Marques, conhecidas por Costa Abreu, atingiam o Rio Claro, afluente do Pardo.
Costa Abreu sabia dos vãos entre as sesmarias e as terras devolutas que podiam ser apossadas na serra, sem comprometimentos maiores, a partir das divisas do Capitão Gomes Pinheiro, e então o notável acordo entre eles para as ocupações, as matas para Costa Abreu e os campos para o Capitão, que enxergara em Costa Abreu o homem certo para a arredar ou, se preciso, exterminar o selvagem, daí de melhor agrado consentir-lhe a ocupação das matas.
Com o acordo selado Costa Abreu de imediato trouxe dezenas de famílias mineiras interessadas em povoar o sertão e trabalhar a terra, instalando-as nos arredores do povoado Nossa Senhora das Dores no Cimo da Serra, para cujo patrimônio doara, informalmente, porção maior de terras para melhor acomodar a população chegante.
Costa Abreu apossou as terras que lhe cabiam no acordo, doou informalmente porção ao patrimônio de Nossa Senhora das Dores no Cimo da Serra, e em 1839 trouxe famílias diretamente do sul-mineiro e aquelas por ele já interiorizadas no território paulista, para trabalhar a terra, "a mineirada dos Costas" (Almeida Pinto, 1994: 29), e Euzebio era o representante do irmão (Donato, 1985: 55).
O sucesso de Costa Abreu em expulsar os índios e garantir fortaleza atraiu outros fazendeiros. O agricultor Pedro Nardes Ribeiro ou Pedro Ribeiro Nardes deixou Itapetininga, em 1834, para estabelecer-se com a família e agregados às margens do Ribeirão Grande, nas cercanias de Aimorés, atual município de Bauru. Depois Nardes desceria para o Rio Grande do Sul para lá crescer a sua família.
Os sorocabanos Procópio José de Mattos e Domingos Palmeira, em 1835, avançaram adiante da Boa Vista - antiga Fazenda Jesuítica - e apossaram terras das quais destacada a Fazenda Palmeira.
Também Ignácio Dias Baptista - o Capitão Apiaí, à mesma época senhoreou-se de terras, campos e matas, desde as nascentes e vertentes dos Ribeirões São Domingos e Forquilha aos respectivos despejos no Turvo, e nos lugares estabeleceu os arranchamentos Forquilha e São Domingos, depois bairros rurais, e São Domingos tornou-se fortaleza e sentinela sertaneja antes de ser elevada à condição de paróquia eclesiástica e freguesia. 
O Capitão Gomes Pinheiro igualmente avançou conquistas adiante da Serra de Botucatu, e em seu nome registradas terras na região de Bauru confinantes ao Nardes (IBGE/EMB Vol. XXVIII, Bauru, 1965: 132-133). 
A despeito das exitosas campanhas de Costa Abreu, não se exclui violentas reações indígenas. O Capitão Apiaí [Ignácio Dias Baptista] foi capturado, morto e crucificado em 1838, e outros fazendeiros já haviam experimentado as agruras nas mãos do inimigo que, habilmente subia a serra para os ataques impiedosos, e regressava para as fraldas onde se faziam imbatíveis.
De outra maneira, não tardou o desentendimento entre Costa Abreu e Gomes Pinheiro, este acusando aquele de investir sobre suas terras, mudando divisas e a cancela, e entre eles a célebre 'contenda da porteira' que os zelosos de Costa Abreu defenderam a bala impingindo derrota ao bando do Capitão.
Insatisfeito o Gomes Pinheiro entrou em juízo para reaver pressupostos direitos, mas Joaquim da Costa Abreu morreu antes da decisão, no ano de 1840, e em seu lugar assumiu o irmão Euzebio da Costa Luz, político conservador. 
A ideação política do Capitão Gomes Pinheiro levou-o partícipe na Revolução Liberal de 1842, em Sorocaba, e lá encontrava-se o adversário conservador Euzebio da Costa Luz, e neste incidente histórico, o mineiro José Theodoro de Souza, futuro conquistador do sertão, reagiu à força e libertou Costa Luz.
Fracassada a Revolução, Gomes Pinheiro refugiou-se numa de suas fazendas, em Botucatu, ao alcance de Costa Luz e ver-se forçado renunciar a ação judicial e celebrar acordo, no qual doaria uma porção de terras para criação do patrimônio e futura freguesia, onde o bairro Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra, com mudança do nome da padroeira para Santa Anna de Cima da Serra [de Botucatu], para uns, singela homenagem do Capitão à esposa Anna, embora a mulher de Euzebio também se chamasse Anna.
A história ratifica o poder de Costa Luz, quando o conservador Dionizio Pereira da Silva, assassino do Senador Padre José Bento Ferreira de Mello, entre Pouso Alegre e Ouro Fino – MG, deixara a província mineira para colocar-se sob a proteção do mandatário em Botucatu. Dionizio até fora preso, porém resgatado numa ação ordenada e a seguir orientado refugiar-se para os lados Itararé/Paranapanema, onde viveu em segurança por três décadas até ser recapturado (Correio Paulistano, 06/11/1887: 2), aparentemente denunciado por sua concubina no sertão.
Com a anistia imperial de 1844 e a formação de um Ministério Liberal, Gomes Pinheiro ergueu-se contra Costa Luz intentando como novos mandatários em Botucatu, o João da Cruz Pereira e o Felisberto Machado, representantes liberais e encabeçadores de abaixo assinado pleiteando que lugar fosse elevado à condição de freguesia. O próprio Gomes Pinheiro, Vereador em Itapetininga pelo Partido Liberal, no ano de 1845 assumiu a subscrição e requereu criação da freguesia em sucessivas reivindicações conforme atas daquele Legislativo, e aos 19 de fevereiro de 1846, o Presidente da Província de São Paulo, Manoel da Fonseca Lima e Silva, enfim sancionou a lei nº 283, elevando a freguesia o Distrito de Cima da Serra de Botucatu, sob a invocação de Santa Anna, lugar depois denominado Botucatu.
Mas, Costa Luz ainda se sustentaria mandatário por alguns anos, aparentemente mais interessado em povoar o sertão, trazendo famílias inteiras de Minas Gerais com os principais bugreiros: Bicudo, Cardoso, Chaves, Cunha, Dultra, Dutra, Dutra Pereira, Ferreira, Leite, Leme, Lima, Machado, Moraes, Moreira, Moreira Silva, Nunes, Oliveira, Ortiz de Oliveira, Pereira, Pontes, Reis, Santos, Silva, Soares, Soares Monteiro e a Souza, na qual inclusos Antonio e o irmão, pioneiro-mor, José Theodoro de Souza.
Documentos eclesiásticos, a partir de 1847, confirmam algumas daquelas famílias residentes na então Província de São Paulo, em aguardo nas principais cidades, vilas ou freguesias ditas civilizadas como Araraquara, Botucatu, Brotas, Dois Córregos, Jaú e São Domingos. 
Apenas em 1849 Costa Luz deixou o poder em Botucatu, ou dele apeado, e o Capitão Tito Correa de Mello assumiu o mando, também como herdeiro do sogro Gomes Pinheiro, morto no ano anterior.
Ao ensejar a conquista do último rincão inculto da província paulista, Costa Luz ou às suas ordens teria feito esquadrinhar o sertão, das dimensões de Holanda, para saber onde localizadas as aldeias, os números de seus guerreiros, os acidentes geográficos, os caminhos e, até, os usos e costumes do povo a sofrer as ofensivas, apresentando assim a possibilidade de ataques relâmpagos, quase simultâneos, em toda a região a ser ocupada, conforme viria acontecer.
Considere-se nisto o uso de índios mansos para levantamentos, aliados ao costume do selvagem não atacar passantes, situações de valia para os observadores.
3.2. Das verdades sobre a conquista sertaneja
A oficialidade botucatuense, em 1889, quando já mortos os principais nomes da conquista sertaneja ou decrépitos os sobreviventes, determinou versão histórica do lugar e da conquista sertaneja centrada nas figuras do Capitão José Gomes Pinheiro Vellozo e do seu genro, o também Capitão Tito Correa de Mello, que em maior parte foi o responsável pela variante imposta.
Depreende-se das tradições que o Capitão José Gomes Pinheiro Vellozo foi o fundador de Botucatu, enquanto o Capitão Tito Correa de Mello o nome principal da conquista sertaneja, variantes que não mais se sustentam.
Na conquista sertaneja, nada obstante, determinava-se que o Gomes Pinheiro desejava desde antes povoar o sertão e em 1842, quando de seu esconderijo na Fazenda Monte Alegre, escrevera ao 'amigo' José Theodoro de Souza "Que viesse ver as terras da serra. Garantia que não ia se arrepender" (Marins, 1985: 25). Mas não existe registro que José Theodoro de Souza tenha recebido alguma carta ou atendido convite do Capitão Gomes Pinheiro, menos ainda que fossem amigos.
Tito, por sua vez, quando feito mandatário em 1849 teria enviado carta ao 'compadre' José Theodoro de Souza, convocando-o reunir bando, deixar Minas Gerais e vir urgente ao sertão para dar combate aos índios. 
Tenor afirma que o Capitão Tito, naquele ano "decidiu-se chamar seu irmão de forja, José Teodoro de Souza, que morava em um pequeno sítio na cidade de Pouso Alegre, na Província de Minas Gerais, através de uma carta com muitas promessas de riqueza." (Memoriais - Tito Correa de Mello, 05/06/2002). 
Para Donato, Theodoro "foi dos primeiros a atender o chamado de Tito Correia de Mello que, acenava com posses em terras riquíssimas 'sem dono '-" (1985: 110).
Marins, no romance historiográfico Clarão na Serra, descrevendo personagens, não titubeou apontar que o Capitão, representando os fazendeiros, convocara por carta, em 1849, o mineiro José Theodoro de Souza para vir ao sertão combater índios, garantindo-lhe o remetente por recompensa torná-lo "dono de meio mundo naquele sertão, que começava na serra" (1985: 45).
Todavia, à mesma maneira acontecido com a carta do Capitão Gomes Pinheiro, ainda não localizada nenhuma prova deste novo chamamento, senão o testemunho do próprio Capitão Tito, em seus relatos de 1889, ao avocar para si a convocação do "compadre José Teodoro de Souza, que vinha à Botucatu a meu chamado" (Moreira da Silva, in IBGE/EMB Volume XXVIII – Avaré 1965: 99-100), porém não a datou.
Ora, no ano de 1849 o José Theodoro de Souza e sua mulher dona Francisca Leite da Silva já residiam em Botucatu, declarados fregueses aos 02 de julho daquele ano, presentes num batizado da família Nolasco (Botucatu, Livro 1849/1856, 02/07/1849: 26).
Mencionado livro é o primeiro conhecido para assentos eclesiais exclusivamente botucatuenses, sendo os registros anteriores, pelos padres visitadores, levados para suas respectivas paróquias, principalmente a de Itapetininga, cabeça da vigararia regional. 
Desta maneira desde quando morador em Botucatu, Theodoro teve oportunidades de encontros e acertos com o Capitão Tito, sem necessidades de cartas convocatórias para combinações de planos como faz crer Moreira da Silva (Op.cit. 1965: 99-100). 
De outra forma, tratando-se de Tito como mandatário até improvável que Theodoro não o consultasse, ou, a considerar o interesse do Capitão, à frente dos fazendeiros, pela empreitada de Theodoro, igualmente difícil que Tito melhor não se informasse com o pioneiro-mor.
4. A Guerra ao Índio
Theodoro iniciou a incursão sertaneja antecipando-se à Lei [Imperial] de Terras, nº 601, de 18 de setembro de 1850, num momento que o governo 'cedia' aos conclamos dos fazendeiros, com ato permissivo de repressão aos índios vagantes e hordas selvagens. 
Numa brecha legal ou regra de interpretação, o Decreto Imperial nº 426, de 24 de julho de 1845 – 'Regulamento das Missões', reconhecia o direito de posse – ou usufruição – de terras aos índios aldeados, dentro dos limites da Missão, mas não aos índios selvagens e aqueles recalcitrantes ao aldeamento, e, então, o avanço do branco podia ser justificado, pois tais hordas impediam o progresso e colocavam em risco as famílias trabalhadoras.
De outra forma, não havia aldeamento indígena adiante de Botucatu, e o de São Sebastião do Tijuco Preto – Piraju, apenas seria implantado em 1854.
O bandeirante apresentou-se à frente de verdadeiro exército, com cerca de mil homens, conforme inferido num documento de junho de 1851 (DAESP/BT, 22/02/1851: 1, Caixa 40, Pasta 1), com o duplo propósito em fazer a extirpação étnica e a imediata ocupação das terras. 
Theodoro dividira sua tropa em frentes ou colunas fortemente armadas, com líderes postos e instruídos para as ações predatórias. Os comandos receberiam suas pagas em porções de terras e as fracionariam para os comandados, além das partes que seriam postas a vendas e os lotes destinados aos povoados.
Moreira da Silva (1965: 99-100) descreveu o início do etnocídio a partir de Avaré, onde exterminados ou expulsos os Caiuás e Botocudos, numa guerra sangrenta "que preparou o terreno para a chegada dos históricos fundadores da cidade de Avaré, o major Vitoriano de Souza Rocha e o alferes José Domiciano Santana." (Franzolin e Silva Junior, Jornal Sudoeste do Estado, Avaré-SP).
No entanto o Capitão Tito, em 1889, colocando-se líder da empreitada minimizaria a tarefa: 
  • "De volta de sua excursão nas terras dos índios Caiuá e Botocudos, José Teodoro de Souza, que chefiava o bando de 'posseiros' consultou-me se devia conservar o nome dado pelos selvagens aos rios e morros encontrados, bem como aos campos, ao que retorqui ser melhor dar-lhes nomes novos, de acordo com a nossa linguagem. E então ficou combinado o registro das posses efetuadas." (Moreira da Silva, op.cit. 1965: 99-100). Francisco Marins, a seu tempo, anunciava a consequência do acontecimento: "Os pioneiros, pondo pé de apoio na serra, invadiam o sertão e iam fazendo nascer os povoados de Avaré, Lençóis, Santa Bárbara do Rio Pardo, Timburi, São Manuel." (1985: 46).
Das razias e dadas cometidas contra os índios, em 1861, contaram horrores praticados:
  • "(...) pellos bugreiros, e de maneira que foi totalmente destruido, sendo os homens á balla, e as mulheres e crianças a faca, com o único fim de apropriarem os optimos terrenos, que desgraçados occupavão, os quaes com a mania de novas posses os seos conquistadores venderão por pouco mais de nada, para levarem mais longe a devastação." (DAESP/BT, Caixa 39, Doc. 41-B, Pasta 2: 0225-0226).Mas, não há de se falar em conquista territorial sem a presunção da resistência indígena. O memorialista Dantas confirma que "Houve lutas ferozes dos índios contra os exploradores e colonizadores, (...) e com violentos massacres e represálias recíprocas" (1960: 40).
O objetivo dos conquistadores "era tornarem-se realmente senhores da área que o registro lhes attribuiu, consentissem ou não os donos primitivos (...) encarniçada a lucta e só teve fim depois que os selvagens foram completamente exterminados." (Nogueira Cobra, 1923: 48).
Fragmentos históricos mostram o lado cruel dessa atividade exercida pelo pioneirismo, avocado ao processo da dizimação indígena para ocupação territorial e de produção, conforme exigências do capital e interesses do estado. 
Por onde passava, Theodoro, à frente do grupo, era visto como "matador de índios (...) armado de trabucos e enormes facões, foices e outras armas (...). Os silvícolas fugiam em debandada, deixando tudo a mercê dos invasores, inclusive cadáveres" (Chitto, 1972: 23). Donato qualificou-o de "impiedoso conquistador, feroz perseguidor de índios." (1985: 110).
No Turvo o avanço dos bugreiros foi traumático, com as ações de Francisco [de] Pontes "que fez barbaridades com os índios de São Pedro do Turvo?" (Marques Padre, 2009: 26). 
No Vale do Pardo santacruzense as atrocidades não foram menores. Relatos ainda do século XIX não deixam dúvidas que Manoel Francisco Soares, posseiro primitivo, muito combateu "a horda de indígenas ferozes, que infestaram estas paragens" (Almanach da Provincia de São Paulo, 1887: 541).
A empreitada ocorreu num curto espaço de tempo, a contar de 1850, quando tribos inteiras exterminadas e os índios sobreviventes arredados, e entre maio e junho de 1851 já se discutia a elevação da primeira Capela sertaneja, aonde a atual Lençóis Paulista (DAESP/BT, Caixa 40, Pasta 1, 22/07/1851: 1), porém a escolha política e eclesiástica recairia sobre São Domingos, localidade mais antiga e melhor centralizada. 
Com a conclusão que nenhuma posse foi mansa e pacífica, e nem poderia ser, porque impossível imaginar a retirada indígena sem reações, compreende-se que a missão de José Theodoro de Souza não foi apenas 'povoar o sertão do Paranapanema', mas exterminar os índios, tomar-lhes as terras e entregá-las 'limpas' à civilização.