SatoPrado - coletâneas

ATENÇÃO: Acesso gratuito às coleções de jornais e de antigos documentos eclesiais, cartoriais e político-administrativos para Santa Cruz do Rio Pardo de antigamente. Site ainda em construção, porém já disponíveis alguns arquivos em: http://pradocel.wix.com/satoprado

domingo, 4 de abril de 2010

SANTA CRUZ DO RIO PARDO - SUA ORIGEM E A BIOGRAFIA DOS FUNDADORES

Mapa sertanejo - gentileza de Marciano Aparecido Nantes
1.  Do todo de José Theodoro de Souza, o Vale do Pardo 'Santacruzense'
O pioneiro-mór ao chegar à região do Pardo e Turvo, no mês de junho de 1851, estabeleceu alguns de seus homens em locais estratégicos para os cuidados iniciais do sertão, garantindo segurança para as famílias que desejassem trabalhar o sertão, e repassou quinhões de terras aos partícipes das conquistas, bugreiros e financiadores, conforme combinações.
Todas as nascentes para o Paranapanema, entre os rios Pardo e Laranja Doce - mais próprio a Água Boa, pertenciam a José Theodoro de Souza (vide mapa).
O pioneiro dividiria o seu latifúndio em quatro grandes porções – Pardo, Turvo, Rio Novo e Capivara – reservando o Turvo para si, os parentes e amigos mais próximos. As demais partes seriam postas a vendas, uma após outra, a partir do Vale do Pardo santacruzense, retalhado em sortes de terras como fazendas pioneiras na região. 
A partir de dezembro de 1851 são registradas as primeiras transações de terras no Pardo e Turvo – região para Santa Cruz do Rio Pardo, e observados os arranchos nas fazendas, ou entre elas, todavia ignorados os residentes iniciais. Os fazendeiros nem sempre residiam nas propriedades adquiridas, e os seus agregados, empregados diversos e escravos, não tinham nomes destacados para a preservação histórica. 
1.1.  Capela Santa Cruz do Rio Pardo - área urbana
Dentre os arranchamentos da época evoca-se aquele no pontal Pardo/São Domingos, como sede da Fazenda Santa Cruz – uma fração dos direitos assumidos por Manoel Francisco Soares pela sua participação na conquista sertaneja. O primitivo núcleo era onde o atual marco inicial santacruzense, região do Chafariz, e trazia por nome Bairro Santa Cruz, citado em documento eclesial de São Domingos, aos 25 de junho de 1857 (Assentos, Santa Cruz do Rio Pardo, Livro 1856-1884, Registro nº 10). 
Por volta de 1855 Soares dividiu suas terras em grandes fazendas, sendo a primeira delas a Santa Cruz 'principiando na barra do Ribeirão São Domingos e por este acima ao valo divisor com a Fazenda São Domingos até o espigão onde a antiga estrada e do outro lado desta, pelo espigão, prosseguir até os terrenos de Ignácio Fernandes ou Francisco Garcia, daí rumo ao Rio Pardo e, por este abaixo, ao início desta divisa' (Prado e Sato – pelas demarcações das Fazendas São Domingos – de Ignacio Fernandes Garcia e Cyrino Pinto da Fonseca, e Santa Cruz – de Henrique Kruzman).
O valo era um rego seco construído para marcar a divisas de propriedades em lugar de cerca, e o valo mencionado vinha desde o Ribeirão São Domingos, num ponto imaginário entre as atuais Rua Francisco M Oliveira e Travessa Carmelo Comegno, em direção ao término da Rua Carlos Gomes, obliquando e de passagem pelas vias públicas General Carneiro, Marechal Floriano Peixoto e Antonio Mardegan em rumo à Travessa Marechal Deodoro para, em suave desvio à direita e chegar à margem do Rio Pardo, entre as ruas Padre Pio Giocondo de Lorgna e Pedro Manoel de Andrade (Arquivo Público do Estado de São Paulo – APESP, IGC_IGG_CAR_I_S_0033_001_001).
Na Rua Euclides da Cunha, outrora adiante do valo começava a antiga estrada entre Santa Cruz de Rio Pardo/Espírito Santo do Turvo, hoje seguimento pela Avenida Coronel Clementino Gonçalves.
Do lado esquerdo, no inicio da estrada, principiava a Fazenda São Domingos, em áreas das hoje vilas Sidéria, Santa Aureliana, Oitenta, e demais, suburbanas e rurais. A Fazenda São Domingos, naqueles tempos, atravessava o ribeirão e prosseguia adiante. 
À direita da estrada, a partir do valo, estava a fazenda Santa Cruz abrangendo toda a Chácara Peixe inclusas as áreas suburbanas e rurais.
Em 1861/1862 documentos comprovam que Manoel Francisco Soares doou cem alqueires de terras ao patrimônio de Santa Cruz, sob a administração da Igreja, para a oficialização de uma Capela, a partir do pontal Pardo/São Domingos, onde inserida o arraial Santa Cruz – sede da fazenda, lugar de residência do doador.
  • "Capella de Santa Cruz do Rio Pardo – Não consta escritura alguma com referencia ao patrimonio daquela Capella, mas pelos papeis existentes na Câmara Eclesiástica, sabe-se que o patrimonio da referida capella foi feito por Manoel Francisco Soares, que doou em 1861 ou 1862, uns terrenos cujas divisas acham-se compreendidas entre o ribeirão de S. Domingos, principiando na confluência deste ribeirão com o rio Pardo, de um vallo, que vai do mesmo ribeirão ao rio Pardo, e deste à mesma confluencia, onde tiveram principio e fim." (ACMSP, Relatório dos Bens Imóveis da Diocese de São Paulo de 1904: 55-56', mandado organizar pelo Monsenhor Manoel Vicente da Silva). 
O valo de 1855 que do Ribeirão São Domingos chegava até a estrada na esquina da Conselheiro Saraiva com o final da Rua Euclides da Cunha, teve prolongamento, em linha reta, até o Rio Pardo, e o limite urbano santacruzense de 1862 ficou confinado:
  • Com a Fazenda Santa Cruz: "Começando do vallo que divide com o patrimônio da cidade até o espigão; por esse espigão até o vallo existente, continuando pelo mesmo espigão, etc." (DOSP, 13/07/1909: 2094).
  • Com a Fazenda São Domingos: "Principiando em uma peroba á beira da estrada, divindo com o patrimonio de Santa Cruz, e seguindo desta peroba em rumo ao ribeirão de São Domingos, atravessando este, etc." (DOSP, 17/05/1895: 13586).
O Padre João Domingos Figueira, morador do lugar desde 1861/1862, confirmou em carta de 1864: "O patrimonio doado tem sem [sic] alqueires, mais ou menos, terreno proprio para grande povoação, agua pelo alto com abundancia, apresenta este logar um futuro risonho." (ACMSP, Pasta de Documentos Avulsos para Santa Cruz do Rio Pardo).
Matéria publicada no 'Progresso de Tathuy', edição de 12/12/1878, reproduzida em outros informativos da época, descreveu a participação do Padre Figueira na origem do lugar: "Foi elle quem mandou derrubar a matta, onde hoje é a villa de Santa Cruz do Rio Pardo, e mandou ahi fazer-se a primeira roça." (Apud A Reforma, Rio de Janeiro, 19/12/1878: 2). 
Ao nome Santa Cruz, já conhecido bairro rural como sede da fazenda, foi acrescido o Rio Pardo em 1862, quando de seu reconhecimento como Capela. Não se sabe o dia, porém a considerar o hábito de se dar o nome do lugar ao santo do dia, ou comemorações de exaltação, tem-se 03 de maio por data inferida, data de exaltação a Santa Cruz, nada provável, apenas possível.
O padre Figueira, numa referência dada à Santa Cruz do Rio Pardo de 1862 ratificava "O patrimonio doado é de 100 alqueires já conta com 18 a 20 fogões no arraial. A afluencia do povo é immensa." (Apud ACMSP, Pasta de Documentos Avulsos para Santa Cruz do Rio Pardo).
Historicamente correto e documentalmente comprovado, o fazendeiro Manoel Francisco Soares doou terrenos para a formação patrimonial, e o Padre João Domingos Figueira concorreu para formação e passagem do lugar à condição de Capela, filial de São Domingos. Soares e Figueira são, meritosamente, os fundadores oficiais de Santa Cruz do Rio Pardo. 
1.2.  Santo Antonio, parte do atual Bairro São José
O casal José dos Santos Coutinho e Rita de Sene, genro e filha de Manoel Francisco Soares e Ignácia Porcina de Sene, aos 09 de março de 1868 doaram vinte alqueires de terras ao Patrimônio do Santo Antonio, conforme escritura lavrada em São Domingos (Livro de Notas, nº 3, fls. 59-v a 60-v, 1º traslado pelo Tabelião de Santa Bárbara do Rio Pardo, aos 04 de dezembro de 1891).
  • O terreno pertencera antes a João Paulo Garcia, extraído da primitiva posse de Faustino Machado de Oliveira.
Documentos eclesiais comprovam a doação e posse imediata da Igreja sobre aqueles bens (Cúria Diocesana de Ourinhos – Documentos Avulsos para Santa Cruz do Rio Pardo, gentileza de Rosana Gomes de Moraes).
No ano de 1900, mapa do Patrimônio de Santo Antonio revelava, em verdade, mais de 24 alqueires (Prefeitura, Cadastro, gentileza de Julia Maria Andreolli).
Num longo e discutido processo, após a laicidade do Estado, a Câmara Municipal desapropriou os terrenos da Igreja (Patrimônios de Santa Cruz e Santo Antonio) a favor da Municipalidade, com transmissão oficializada por escritura pública de 05/02/1903 (Cartório Oficial de Registro de Imóveis - Santa Cruz do Rio Pardo, Livro 3-L (antigo) de Transcrição das Transmissões, fls. 026).
2.  Dos fundadores de Santa Cruz do Rio Pardo
Os patrimônios doados a Santa Cruz (1861/1862) e ao Santo Antonio (1868) formaram a sede do município de Santa Cruz do Rio Pardo.
Mesmo não desconsiderando a doação do casal Coutinho e Sene, das terras ao Patrimônio do Santo Antonio visando formação de povoado posteriormente incorporado à então Vila de Santa Cruz, são consagrados fundadores do lugar Manoel Francisco Soares e Padre João Domingos Figueira. 
2.1.  Manoel Francisco Soares
O pioneiro santacruzense declarou idade de 64 anos, em 1858, na sua qualificação eleitoral para o 7º Quarteirão do Rio Pardo, Freguesia de São Domingos, Município de Botucatu (DASP, 1859, Ofícios Diversos para Botucatu).
Quatorze anos após revelada a idade Soares teria falecido em São Domingos, conforme sugere registro de sepultamento de certo Manoel, aos 10 de outubro de 1872, declarado "viúvo, de edade muito avançada, e rezada recomendação, diz ser natural de Taubate, não lembrou familia e morreo pobre na fazenda de Mecias d’Andrade" (ACMS/SGU, SCR. Pardo).
As tradições familiares apontam Manoel Francisco Soares falecido por volta de 1870, e seu nome não constou nas solenidades que elevou Santa Cruz à condição de freguesia pelo poder civil, em 1872, ratificada eclesialmente no ano seguinte. Ainda pelas retentivas, Soares cometera crime de morte, por questões de terras, evadindo-se do local para jamais retornar, e no período entre a fuga e sua morte estivera sob proteção de tribo indígena ou de algum fazendeiro poderoso na região, encaixando-se o Messias José de Andrade neste perfil.
  • Os autores, esgotadas tecnicamente as possibilidades de homônimos 'Manoel', faixa etária dos 60 ou mais anos, para Santa Cruz/São Domingos e adjacências, concluíram ser o pioneiro santacruzense, aquele identificado em óbito.
Nascido ou não em Taubaté-SP, a primeira referência documentada sobre Manoel Francisco Soares aconteceu na província mineira, aos 08 de fevereiro de 1818, já casado com Ignacia Porcina de Sene, no batizado do filho Miguel, em Capela São João do Nepomuceno, Lavras-MG (Eclesial: Livro 1805-1829, Imagem 206). O documento religioso revela-o, com a mulher, "agregados do Capitão Andre Martins de Andrade".
Existe outro assento de batismo do mesmo Miguel (Eclesial: Livro 1805-1829, Imagem 218), em Capela de São Bento do Campo Belo, onde uma das fazendas do Capitão André Martins de Andrade (Inventário e Tutela - Projeto Compartilhar).
O casal Senne/Soares teve os seguintes filhos conhecidos:
  • Miguel, nascido em 1818 conforme acima mencionado,  não apresentou-se eleitor em 1859, e dele quase nada se sabe no sertão, à exceção do filho Manoel Soares (DOSP, 01/10/1918: 4869) em invasão de terras na localidade de São Pedro do Turvo.
  • Maria, batizada em Capela de São Bento de Campo Alegre - Lavras. a 1º de novembro de 1819 (Livro 1805-1829 Imagem 221). Igual ao irmão Miguel, nada se sabe a respeito de Maria. 
  • Ritta: batizada aos 15 de fevereiro de 1821, em Rio Verde (Eclesial, Livro Índice de Batismos, Campanha/Santo Antonio, MG, 1813-1824), sendo padrinhos Miguel Justino do Espírito Santo e Anna Ignacia de Lima – tidos avós pelo lado materno. Ritta casou-se com José dos Santos Coutinho sendo o casal doador de terrenos ao Patrimônio de Santo Antonio, em 1868, incorporado à formação de Santa Cruz do Rio Pardo.
  • Antonio Francisco Soares: nascido por volta de 1823, casado com Anna Lauriana Vieira, aos 23 de fevereiro de 1846 (Eclesial, Silvianópolis - MG, Matrimônios:  1842-1873). Antonio foi dono de terras no Ribeirão Capivara, tributário do Pardo (Pupo e Ciaccia, 2005: 207 - F-35, citação de divisas).
  • Joaquim José Soares: nascido por volta do ano de 1826, casado com Maria Antonia da Luz, em data de 29 de julho de 1847 (Igreja Católica/SGU, Matrimônios, Silvianópolis – MG, 1842-1873).  Joaquim mudou-se, com sua numerosa família, de Santa Cruz do Rio Pardo para a região de Conceição de Monte Alegre (Leoni, 1979: 5). 
  • Justino Soares: nascido por volta de 1828, casado com Antonia Maria dos Sanctos, aos 02 de dezembro de 1850, (Igreja Católica/SGU, Matrimônios, Araraquara, SP, 1842 - 1865).
  • Pedro Francisco Soares: nascido aos 17 de novembro e batizado aos 02 de dezembro do ano de 1830 (Eclesial, 1800 - 1835). Não teve história conhecida, porém sabe-se de seu filho Joaquim Tito Soares, nascido em 1871, eleitor em 1904 (Livro Eleitoral – Resumo dos eleitores das Seções Federais, Santa Cruz do Rio Pardo, 1904).
  • Anna: nascida aos 22 de junho e batizada aos 22 de julho de 1832 (Igreja Católica/SGU, Batismos, Silvianópolis, MG, 1800 - 1835), casada com José Domingos ou Domingues de Chaves, em São Bento de Araraquara, em 04 de fevereiro de 1851 (Eclesial, Livro 1842 - 1865). Adotou nome de Anna Porcina de Senne.
  • Francisco Soares: nascido aos 08 de dezembro de 1833, e batizado em 01 de janeiro de 1834 (Igreja Católica/SGU, Livro de Batismos, Silvianópolis, referência 1800/1835), casado com Hipolita Maria de Jesus (Igreja Católica/SGU, Batismos, Botucatu 1856/1859 referências em 04/09/1858 registro 1537). 
  • Joaquina: nascida aos 30 de junho e batizada aos 14 de julho de 1835 (Eclesial, Silvianópolis - MG, Livro: 1797/1837),  conhecida no sertão, salvo homônimos, pelos  nascimentos das filhas, Anna, os 08/01/1857 e batizada aos 09/03/1857 (Eclesial, Botucatu, Batismos Livro 1856/59: 21), e Prudencianna, batizada em São Domingos, aos 20 de novembro de 1862, idade de 04 meses (Eclesial, Santa Cruz do Rio Pardo - SP, 1859/1879: 192), ambas de pai incógnito.
Antes de chegar ao sertão Soares teve passagens registradas em Araraquara – SP, aos 02 de dezembro de 1850 e 04 de fevereiro de 1851, quando dos casamentos dos filhos, Justino Soares com Antonia Maria dos Sanctos [Chaves], e Anna Porcina Soares com José Domingos Chaves, respectivamente. Antonia Maria e José Domingos eram irmãos, filhos de José Francisco Chaves e Joaquina Maria dos Santos, também pioneiros em Santa Cruz do Rio Pardo. 
Também Manoel Francisco Soares esteve em Brotas, no batismo de seu neto Joaquim, filho de Justino (Eclesial/Batismos, 1843/1864, Imagem 115 e 116, 14/03/1852). 
A primeira informação documentada, até o momento, da presença de Soares em Santa Cruz do Rio Pardo, remonta ao ano de 1855, citado posseiro primitivo em processos de regularizações de posses de terras para fazendas Santa Cruz e São Domingos (DOSP, 17/05/1895: 13584-13585). 
A preparação de fazendas para vendas, no entanto, demandava cerca de quatro ou cinco anos para as dimensões, demarcações, aberturas de caminhos e as derrubadas de matas, bem como o imediato arrancho para o abrigo e segurança dos empregados. Este tempo retrocedente se aplicaria ao Soares cujas posses iam além das Fazendas Santa Cruz e São Domingos, abrangendo também a Crissiumal, em sociedade com João Rodrigues de Oliveira, alienada talvez antes de 1855 (DOSP, 01/09/1895: 14372-14373), e possivelmente a Jacutinga, no Turvo, de onde extraída a Crissiumal (Correio Paulistano, 14/02/1892: 3). Era o quinhão de Soares dentro do território santacruzense registrado por José Theodoro de Souza (RPT/BT, nº 516). 
Ainda na região do Pardo, Soares foi proprietário da Fazenda Salto da Boa Vista, ou Ribeirão Grande, adquirida por compra de Joaquim José Martins, e repassada por venda ao Padre João Domingos Figueira no ano de 1862 (DOSP, 19/03/1898: 23.174).
Afora tais propriedades, Soares possuiu terras em Lençóis Paulista, no 'Corgo da Irara', junto com o filho Justino, ambos citados divisantes numa transação de 09 de outubro de 1856 (Pupo e Ciaccia, 2005: 208-209 - F 37). Também o Antonio, outro filho de Manoel, foi citado dono de terras em 1856, no Ribeirão Capivara, afluente do Pardo (Pupo e Ciaccia, 2005: 207 - F 35), e, após 1870, o Joaquim José Soares, com sua numerosa família, fez-se fazendeiro na região Água do Cervo/Cabiúna, em atual região assisense (Leoni, 1979: 5).
Em 1858 Soares e seus filhos estão entre os qualificados votantes para as eleições de Juízes de Paz da Freguesia de São Domingos, de acordo com a ata da organização da mesa paroquial, datada de 17 de julho de 1859. Pela legislação da época só estavam aptos às votações, aqueles que comprovassem residência de um ano na freguesia, entre os demais quesitos exigidos.
Após 1862, quando da doação patrimonial a Santa Cruz, não se tem qualquer registro conhecido sobre a presença de Manoel Francisco Soares no sertão, até 1872, quando lhe sobreveio o óbito. O pioneiro, viúvo e sem lembranças familiares, "morreu pobre na fazenda de Mecias d'Andrade", com idade de 78 anos, considerados os documentos disponíveis. 
2.2.  Padre João Domingos Figueira
O Padre João Domingos ou Domingues Figueira tem o seu nome lançado em antigos documentos, como o coofundador e primeiro vigário santacruzense. 
Português, nascido aos 14 de abril de 1810, na Freguesia do Estreito de Nossa Senhora da Graça de Camara dos Lobos, filho de João Domingos Figueira e Maria de Faria, batizado em 18 de abril do mesmo ano, conforme "Livro Décimo Oitavo dos Baptizados da Parochial Igreja do Espirito Santo da Villa da Calheta, nelle a folha cento e sincoenta oito verço". De conformidade com transcrição: "Funchal, 13 de Março de 1833"  (Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo - ACMSP, Processo de Genere et Moribus. Anotações feitas pelo Padre Hiansen Vieira Franco em 1998).
Vocacionado à vida sacerdotal Figueira iniciou curso no Seminário Católico de Funchal, em 1824, sem conclusão, egresso em 1833, deixando Portugal para residir no Brasil, onde concluiu os estudos para receber ordens sacras. "Em 1839 'os moradores na Freguezia de Caboverde' pedem ao Bispo de São Paulo a confirmação do Padre João Domingos Figueira para seu Parocho." (ACMSP apud Arquivos Padre Hiansen Vieira Franco).
João Domingos Figueira foi pároco nomeado, a pedido da população, para Cabo Verde – MG, a contar de 1º de outubro de 1839 "por seu comportamento, lisonjeiras esperanças de bem servir a igreja" (Adilson de Carvalho, 1998: 187-188, apud Padre Hiansen, 2003: 34). Padre Figueira exerceu ofícios religiosos em Cabo Verde a partir de 22/10/1837 (Batismos, Livro 1809-1859, Im. 20, 21, 22 e outras, assinados pelo Reverendo Jeremias José Nogueira - Vigário).
Documentos resgatados pelo Padre Hiansen Vieira Franco, em novembro de 2012, revelou os "Auttos de Collação da Igreja de Cabo-Verde a favor do Reverendo João Domingos Figueira", de 27 de junho de 1842, sob o Decreto Imperial de 06 de maio do mesmo ano. 
Aos 23 de agosto de 1845, o Padre Figueira pediu renúncia do cargo, em Cabo Verde, quando "lá não podia permanecer com ameaças consecutivas de morte" (Adilson de Carvalho, 1998: 188, apud Padre Hiansen, 2003: 34). 
O requerimento não prosperou ou foi acordado entre as partes, até 1858, quando novo pedido do padre: "Vinte e dois annos de continuada perseguição nesta Freguezia, è motivo mais que sufficiente para renunciar, pela segunda vez, o beneficio de Nossa Senhora da Assumpção de Cabo Verde, onde por infelicidade sou collado (...)." (Autos de Renuncia de Benefícios – Paróquia de Cabo Verde, MG, 1858: 15/03, apud Padre Hiansen: 2012). 
A solicitação foi aceita pelo Bispado de São Paulo e publicada pelo Governo da Província de Minas Gerais (Correio Official de Minas, 29/03/1858: 1-2), e Figueira perdeu sua condição de vigário colado, e licenciou-se do Clero e "Comprando uma grande fazenda no Rio Pardo foi cultival-a, deixando de parochiar" (A Reforma, RJ, 19/12/1878: 2), em terras adquiridas de Manoel Francisco Soares, no ano de 1862 (DOSP, 19/03/1898: 23.174).
Aos de 02 de julho de 1873 num expediente encaminhado ao Presidente da Província de São Paulo, Figueira confirmaria sua presença na região santacruzense desde 1861/1862, "eu, conhecedor destes lugares, onde habito á doze anos." (ALESP - EE: 73_27.1, 02 de julho de 1873).
Naquele tempo de 1861/1862 Soares doara terrenos para o patrimônio da Igreja no Rio Pardo, e o Padre Figueira pôs-se neles a trabalhar para a formação urbana, ereção de capela, traçados e disposições de ruas, e o rossio, dando à paragem Rio Pardo novo nome, Capela Santa Cruz do Rio Pardo, jurisdicionada à Freguesia de São Domingos. 
O ativismo de Figueira atraiu rivalidade do Padre Barra, Vigário em São Domingos. Os padres desavieram-se e, por carta ao Bispado de São Paulo. Figueira comunicou e denunciou: 
  • "Os habitantes de Santa Cruz do Rio-Pardo filial de Sam Domingos termo de Botucatu, encarregando-me como seu procurador. Dois anos habitei entre elles, neste tempo erigio-se huma capella mór com presbiteryo, altar sacraico, throno retabulo, forrada, assoalhada, com corredores dos lados o mesmo e sachristia. O patrimonio doado tem sem alqueires, mais ou menos, terreno proprio para grande povoação, agua pelo alto com abundancia, apresenta este logar um futuro risonho. A afluencia de povo de todas as partes é immensa. As divisas combinadas com os moradores, e as mais apropriadas devem ser: Principiando na foz do rio Pardo com o Paranapanema, subindo este até frontiar em linha reta com o ribeiro Santa Clara, descendo este a entrar no Turvo, descendo este athe onde principiou a divisa."
  • "Esta Capella dista de S. Domingos quatorse leguas, o vigario bastante inpolitico negou-me todas as licenças para baptisados e casamentos, talves julgando que o privaria de seus emulumentos. Estes habitantes tendo entre si um padre vio-se na dura necessidade, com incommodos innauditos hirem para S. Domingos e dispesas imcompativeis, subscrivendo cotas para o vigario ir, ao lugar, e assim mesmo, não hia se não por, contribuição espantoza, como fosse a benção do cemiterio q. exigio oitenta mil reis dizendo que era a licença, quando a provisão q tenho de cemiterio para minha fazenda importou hum mil duzentos e oitenta."
  • "Senhor esta capella não foi benta e para esse fim requeiro a V. Ex. faculdade para mim ou outro sacerdote de confiança sua. Assim mais a ereção de pia Baptismal. V. Ex. que em todos os actos de sua sublime administração tem apresentado amor paternal, caridade, e desinteresse. Eu em nome daquellas ovelhas submissas do seu grandioso rebanho supplicamos serem atendidas."
  • "Eu, e aquelles ficamos rogando a Deos pela conservação de sua vida apreciavel para ingrandecimento das almas por isso,"
  • "Ilegivel".
  • (ACMSP, Pasta de Documentos Avulsos para Santa Cruz do Rio Pardo).
Da carta, documento inédito, revela o desejo de Figueira reassumir as funções sacerdotais na localidade de Santa Cruz, porém sua designação ocorreria para a Freguesia (Paróquia) de Nossa Senhora da Conceição do Bom Sucesso, atual Caconde, como Vigário Encomendado (RG BN 1003, 1863/1864: 40 – Mapa S/N; RG U 1005, 1864/865: 8-9). 
Da localidade de Nossa Senhora da Conceição do Bom Sucesso, numa carta de 13 de fevereiro de 1864, o Reverendo Padre João Domingos Figueira reclamava ao Bispado os seus problemas lá encontrados e, mais uma vez, referiu-se à Santa Cruz do Rio Pardo de 1862: 
  • "Com magoa levo ao conhecimento de S.Ex.Rev. o que se tem passado neste infeliz lugar há 6 mezes. Convidarão-me para vir ao lugar e fazer meus contratos, estive hum mez [ilegível] -me a que fizesse minha mudança, propuz condições acceitarão, e um lugar onde empregasse os cativos, tudo foi franqueado; porem a peçonha do Hydra estava encerrada nas viceras do depravado que me convidou para este lugar por nome Fernando, este homem é quem afiançava, porem logo q. aqui cheguei portou-se diferente, negando-se ao seu lado, só passado tres mezes, depois de varios desgostos afiançou porem a 10 de Fevereiro quando completava seis mezes ... que os parias não querião mais minha continuação como vigario: não podem elles justificar faltas só sim a 10 de Fevereiro não dei cinca porque não achei palma benta no lugar que elles chamão Igreja, não achei theribulo, no acto ... ... não havia vinho pa. a Missa, e no dia dois ...". 
  • "No dia dois de Novembro p.p. tambem esse senhor feudal sentio-se porque não o esperei e ... quando quizesse ... , são as faltas q. elles o ligão. Em vista do acontecido tenho de regressar para minha fazenda em Sta. Cruz do Rio Pardo, onde fico esperando as determinações de V.Ex. dirigindo-se p. Botucatu. Ainda que quizesse continuar-se pelos emulumentos estes são tão limitados que não dá para o café, Missas neste lugar não há, tudo he mizeria".
  • "V.Ex.Rº atendendo ao expendido asseitará minha dimessão, não me nego a servir a Deos e á Igreja, e em Sta. Cruz existe uma nova povoação cujo povo bem dedicado ao servisso de Deos e da Igreja com minha estada de dois annos fosse uma Capella môr, forrada, assoalhada, com Prezbiterio, altar, trono, sacrário, e retabulo. O patrimonio doado é de 100 alqueires já conta com 18 a 20 fogões no arraial. A afluencia do povo é immensa".
  • "Deos G. a V.Ex. Revª - muitos annos. Bom Sucesso - 13 de Fevereiro de 1864".
  • "O V. João Domingos Figueira".
  • (Fonte: ACMSP, Pasta de Documentos Avulsos para Santa Cruz do Rio Pardo).
Esta carta teve ofício correspondente dirigido ao Presidente da Província de São Paulo: "Ao exm. bispo diocesano – Passo ás mãos de v.ex. o incluso officio em que o padre João Domingos Figueira dá parte de achar-se a freguezia do Bom Successo desprovida de parocho para que v.ex. se digne tomar este objecto na consideração, que julgar conveniente." (Parte Official – Expediente da Presidencia de 21/03/1864, publicação Correio Paulistano, 16/04/1864: 3).
Sem indicativos de serviços religiosos prestados em outras paróquias ou capelas, Figueira retornou à vida de fazendeiro, em Santa Cruz do Rio Pardo, onde, a despeito dos entreveros com o vigário Padre Barra, teria celebrado alguns ofícios religiosos, conforme registros paroquiais posteriormente assinalados pelo então vigário forâneo Bartholomeu Comenale, em 1893, evocando testemunhos de 'pessoas fieis, dignas e de todo critério': "no anno de 1867, nesta Matriz, o Revdo. Pde João Domingos Figueira baptizou José, de poucos dias, filho legítimo de Francisco Theodoro de Souza e Maria Magdalena de São José, foram padrinhos José Botelho de Souza e Lina Honória de São José".
Não existe nenhuma nota oficial encontrada sobre o interesse de Figueira em assumir a Vigararia de São Domingos, ou que fosse convidado, quando da morte do titular Padre Andrea Barra, por assassinato, em setembro de 1870.
Somente com a designação do Padre Francisco José Serodio, para São Domingos, cuja posse em 15 de março de 1872, Figueira retornaria ao serviço religioso, como capelão em Santa Cruz do Rio Pardo até sua nomeação como o primeiro vigário da localidade, aos 15 de março de 1873 (Câmara Episcopal de São Paulo, 1873, apud ALESP, CO 073_001.1).
João Domingos Figueira faleceu aos 26 de novembro de 1878 (Diário de Tathuy, SP, apud A Reforma, RJ, 19/12/1878: 2 e outros órgãos da imprensa paulista), e seu corpo foi sepultado no piso da matriz, próximo do altar (Oliveira Zanoni, 1976: 57). O inventário, em andamento, no ano de 1896 (DOSP, 19/03/1898: 23.174) apresentava como herdeiros legatários, tidos filhos e filhas, alguns conhecidos como naturais de Cabo Verde – MG:
  • João Bonifácio Figueira;
  • Bemvinda Carolina do Espírito Santo, casada com Manoel Gomes Nogueira;
  • Mariana Rosa do Amor Divino, casada com Luiz Antonio Rodrigues;
  • Maria Innocencia da Conceição, casada com José Joaquim Gomes;
  • José Chrisante Figueira, conhecido por João Baptista;
  • Antonio Emilio Rodrigues, conhecido por Antonio Baptista.
Também inclusa beneficiada a 'ex-escrava Rozalia' com quem o padre tivera a filha Maria, nascida em Santa Cruz do Rio Pardo, no ano de 1862, batizada em nome da mãe. Maria morreu em 1889 e em seu óbito constou "filha natural do finado Padre João Domingos Figueira" (Cartório do Registro Civil, Livro C 1: 122), enquanto o registro eclesial revelou-a "filha de pais incógnitos".
O 'Diário de Tathuy' em publicação de 12 de dezembro de 1878 acresceu à biografia pós-morte que "O padre João Domingues gozou de uma bonita reputação como homem e como sacerdote. O povo santacruzense sentiu a sua morte" (Apud A Provincia de São Paulo, 19/12/1878: 2).
Da morte de Figueira reportou o paulistano 'Jornal da Tarde' (17/12/1878: 2): 
  • "Com 69 annos em Santa Cruz do Rio-Pardo, falleceu o revd. vigario padre João domingues Figueira, primeiro povoador daquella villa.". 
  • "Deu Liberdade a trinta escravos, e fez diversos legados pios.". 
  • "Era um verdadeiro apostolo do bem, pelo que os seus parochianos muito sentirão a sua morte.". 
O Padre João Domingos Figueira foi o grande nome na formação histórica de Santa Cruz do Rio Pardo, ao lado de Manoel Francisco Soares, e suas cartas são registros fidedignos daqueles tempos iniciais.
3.  Os primeiros eleitores conhecidos
Em 1859 eram os seguintes nomes de eleitores do 7º Quarteirão do Rio Pardo, região para Santa Cruz ((DASP/BT, Lista Geral dos Votantes da Freguezia de S. Domingos Municipio de Botucatu em o anno de 1859):
  • 'Antonio Francisco Soares, casado, 38 anos'
  • 'Francisco Pires de Sousa, casado, 40 anos'
  • 'Francisco Soares, casado, 24 anos'
  • 'Fellipe de Moura Rocha, casado, 40 anos’
  • 'Faustino Machado de Oliveira, casado, 50 anos'
  • 'José Francisco Chaves, casado, 50 anos'
  • 'José Francisco Soares, casado, 31 anos'
  • 'Joaquim José Soares, casado, 32 anos'
  • 'José Domingues Chaves, casado, 30 anos'
  • 'Justino Soares, casado, 30 anos'
  • 'Joaquim Pereira da Silva, casado, 32 anos'
  • 'José Geraldo, casado, 50 anos'
  • 'José Custodio de Sousa, casado, 30 anos;'
  • 'Ignacio Pinto Gomes, casado, 24 anos;'
  • 'Joaquim Machado, casado, 24 anos'
  • 'José Francisco de Oliveira, casado, 24 anos'
  • 'Manoel Francisco Soares, casado, 64 anos'
  • 'Antonio Machado, casado, 60 anos'
José Francisco Soares não consta no rol de filhos de Manoel Francisco Soares e Ignacia Porcina de Sene.
Por regra legal os eleitores eram ou deveriam ser residentes onde inscritos, pelo menos um ano, mas não se tratava de lugar específico e sim de região dentro de uma freguesia. Em 1859 o 7º Quarteirão tinha territorialidade estendida como aquela mesma combinada em 1862 para Santa Cruz do Rio Pardo: "Principiando na foz do rio Pardo com o Paranapanema, subindo este até frontiar em linha reta com o ribeiro Santa Clara, descendo este a entrar no Turvo, descendo este athe onde principiou a divisa" (Padre Figueira, apud ACMSP, Pasta de Documentos Avulsos para Santa Cruz do Rio Pardo). Por lógica dedução, do Paranapanema rumo às cabeceiras do Ribeirão de Santa Clara cumpria a transposição do Pardo.
Cada eleitor representava família própria constituída, embora nem todos os moradores preenchessem as exigências para a qualificação eleitoral, e, então, região do Rio Pardo poderia abrigar, em 1859, outras famílias que não tinham votantes, ou por não atingirem a renda mínima anual exigida de 200$000, entre outras razões, como residir fora ou sonegar informações.
São exemplos de fazendeiros, prováveis residentes, que não aparecem eleitores no 7º Quarteirão: João Rodrigues de Oliveira, sócio de Manoel Francisco Soares na Fazenda Crissiumal (DOSP, 01/09-1895: 14372-14373); João Vieira Teixeira e Silva, da Fazenda Três Ilhas, por posse primária (Correio Paulistano, 19/04/1891: 2); Joaquim José Martins, Fazenda Ribeirão Grande, também conhecida Salto da Boa Vista, ou anexadas (DOSP, 19 /03/1898: 23174-23175). Alguns fazendeiros, eleitores ou não, nunca residiram no lugar, como o capitalista José da Costa Allemão Coimbra, documentalmente conhecido.